Abdirahman Keinaan ouviu a frase “Go back to Somalia!” desde criança — agora ele a transformou no título da sua nova docussérie e foi pessoalmente à Somália para contar a própria história.
A série, coproduzida por Knaans e YLE Culture & Factual Content, estreou no Helsinki Intl. Film Festival – Love & Anarchy e foi dirigida por Timo Korpi e pelo próprio Keinaan.
Título que provoca e a pergunta sobre identidade
Keinaan diz que escolheu o título para provocar reação: a frase costumava vir pessoalmente e hoje aparece como comentário online. Ele conta que decidiu descobrir por si mesmo o que havia do outro lado daquela ofensa, embarcando numa viagem que mistura investigação e experiência própria.
Ao resumir a tensão central do projeto, Keinaan observa: "Some people tell you: 'Go back to your country.' But which country?!"
Uma viagem filmada — e que virou relato íntimo
Acostumado a falar sobre outras pessoas em seus vídeos, Keinaan admite que este projeto foi diferente porque teve de se expor. Acompanhado do cinegrafista Hamsa Hussein, ele registrou retornos à Somália e também confessou que, após a primeira viagem com câmera, sentiu que estava falando de coisas que nunca havia compartilhado antes.
Ele já anunciou que pretende voltar à Somália sem câmeras, desta vez apenas para se conectar com as pessoas, enquanto a série deixa claro o processo de ressignificação do medo e das impressões que recebeu ao longo da vida.
Do YouTube ao circuito de festivais
Keinaan começou a publicar vídeos aos 16 anos e, segundo ele, aprendeu quase tudo no YouTube. Há dois anos passou a fazer documentários e, com a estreia em Helsinque, percebeu que seu trabalho entrou em outra esfera: estar em um festival o colocou ao lado de profissionais do cinema.
Ele valoriza a mistura entre a experiência prática do YouTube e o trabalho com uma equipe profissional, e acredita que a série pode interessar públicos de outros países porque trata de um sentimento comum a muita gente que vive entre culturas diferentes.
No fechamento, Keinaan afirmou que a série pretende mostrar um lado novo da Somália e que esse olhar mais próximo é parte da resposta a décadas de comentários que o colocaram fora do lugar onde nasceu e cresceu.
Comentário da equipe JC Agora
Converter um insulto repetido em título e narrativa pessoal é um gesto de inversão simbólica: Keinaan transforma agressão online e presencial em impulso para contar identidade e pertencimento. A estreia em festival mostra também como criadores de plataformas digitais podem atravessar o circuito tradicional do cinema sem perder a linguagem própria.
Fontes consultadas
- Variety
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