A Sina de Ofélia é uma faixa criada com inteligência artificial que colocou vozes clonadas de Luísa Sonza e Dilsinho cantando uma versão em português de The Fate of Ophelia, de Taylor Swift, e se espalhou pela internet antes de chegar às rádios brasileiras.
O áudio acumulou milhões de reproduções em plataformas de streaming e redes sociais e, segundo um relatório da Crowley pedido pela BBC News Brasil, foi executado 3.064 vezes em 47 emissoras monitoradas — principalmente no interior do país. A autoria segue desconhecida.
Quanto isso já movimentou e o que o Ecad diz
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) identificou que as execuções da faixa geraram ao menos R$ 50 mil em direitos autorais. Esse valor está retido porque não há um autor identificado a quem o dinheiro possa ser repassado.
O Ecad também registrou, entre janeiro e agosto, 62.292 músicas criadas com IA com royalties retidos, e informou que as rádios representam cerca de 5% dos valores retidos até agora — a maior parte vem do streaming e redes sociais.
Risco legal e responsabilidade das rádios
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a faixa pode configurar fraude e que sua execução em emissoras pode configurar crime. As sanções apontadas incluem indenizações por danos e, em tese, penalidades criminais que podem chegar a prisão.
O advogado Guilherme Valente explicou que, no rádio, há curadoria e portanto maior responsabilidade editorial de quem escolhe as músicas — o que difere de plataformas de streaming, onde a obrigação de remoção costuma depender de notificação formal do titular dos direitos.
Repercussão nas plataformas e reação dos artistas
Plataformas como Deezer e Spotify dizem que precisam de uma notificação formal para agir; a Deezer chegou a identificar faixas geradas por IA com um selo e tirou conteúdo do alcance de recomendações. No YouTube, um dos clipes enviados à análise foi removido, e outros receberam marcação como conteúdo de IA.
As equipes de Luísa Sonza e Dilsinho disseram informalmente estar surpresas e afirmaram que os artistas não sabiam do caso. Ainda assim, ambos chegaram a usar a música em vídeos nas redes sociais — ações que viralizaram — mas não quiseram gravar entrevistas nem responder formalmente à reportagem.
Para a superintendente do Ecad, Isabel Amorim, a música é "a ponta do iceberg" do avanço da IA generativa na indústria musical, um sinal de que o fenômeno já ultrapassou os testes e entrou no circuito comercial e de rádio.
Enquanto isso, associações de rádio orientam emissoras a não reproduzir músicas feitas por IA, e o setor debate limites legais e operacionais para controlar conteúdos que chegam viralmente às programações.
Comentário da equipe JC Agora
O caso revela um choque entre viralização e mecanismos tradicionais de controle: conteúdo gerado por IA alcançou rádios sem autoria clara e deixou valores retidos no Ecad. A atitude das plataformas — que pedem notificações formais — e o envolvimento dos artistas mostram um vácuo operacional e legal que já está mudando a indústria musical.
Fontes consultadas
- G1 Pop & Arte
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