Uma onda gigante de água, gelo, lama e rocha varreu mais de 170 quilômetros pelo vale do Bhote Koshi, entre o Nepal e a fronteira com o Tibete, deixando mais de 150 mortos e centenas de desaparecidos — entre eles ao menos 34 australianos — e com pouco ou nenhum aviso prévio.
Como a enchente virou um "tsunami de terra"
Imagens e relatos iniciais mostram um muro de detritos que atingiu pontos como o posto fronteiriço de Gyirong com força devastadora. Especialistas dizem que o evento teve energia sísmica suficiente para aparecer como um tremor de magnitude 4,4 em sismógrafos, porque uma enorme massa deslizou morro abaixo juntando água, gelo, árvores e rocha.
Estimativas preliminares mencionam que a onda pode ter alcançado cerca de 30 metros de altura em alguns trechos, transformando o fluxo em algo comparável a um tsunami, mas feito de lama e fragmentos de geleira.
Por que cientistas apontam para um colapso glacial
Análises iniciais por satélite indicam que a queda pode ter sido provocada pelo desbarrancamento de partes de uma geleira — ou seja, a própria geleira teria sido esculpida e desintegrada pelo deslizamento, liberando grandes volumes de água e gelo.
Os especialistas lembram que os grandes estoques de gelo do Himalaia, chamados por alguns de "terceiro polo", estão em retração, e que o degelo, somado ao derretimento do permafrost em encostas íngremes, torna deslizamentos repentinos mais prováveis. Pequenas falhas, um tremor ou um colapso podem, então, desencadear fluxos de detritos de grande escala.
O que pode reduzir riscos em áreas montanhosas
Casos recentes no mundo mostram que sistemas de alerta e evacuação podem impedir mortes em colapsos de geleira: na Suíça, por exemplo, autoridades evacuaram antes de uma queda e ninguém morreu. Mas instalar e manter esses sistemas exige investimento — um desafio para países com menos recursos.
O debate após a tragédia destaca duas apostas concretas: investir em monitoramento — incluindo sensores para níveis de rios e sinais sísmicos — e ampliar a capacidade de alerta local. O Green Climate Fund anunciou no ano passado apoio para melhorar monitoramento no Nepal, um passo alinhado com essa necessidade, segundo especialistas.
Há um histórico de eventos semelhantes na região e em outros países: em 2024 houve um rompimento de lago glacial que provocou cheias no Nepal; no ano passado um fluxo de detritos em outro distrito matou nove pessoas; e episódios de deslizamento ligados a geleiras também já destruíram comunidades em outras partes do mundo.
Comentário da equipe JC Agora
A tragédia no Bhote Koshi mostra como o derretimento de geleiras e o degelo do permafrost podem transformar encostas em bombas de detritos. Além da resposta emergencial, o caso reforça a urgência de monitoramento e sistemas de alerta em regiões montanhosas vulneráveis — medidas que salvam vidas, mas exigem investimento e coordenação.
Fontes consultadas
- Phys.org
- BBC Science & Environment
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